Opinião

Monopólios & livre mercado

Imprimir
Quinta, 20 Abril 2017
Acessos: 306
Compartilhar

Nos tempos da Guerra Fria, nós, da esquerda, ficávamos sem resposta s para um argumento muito forte da direita: a livre concorrência era o maior atributo do capitalismo. Com ela, o consumidor tinha preços e produtos melhores. O próprio mercado se encarregava de descartar os mais caros ou de qualidade inferior.

Nada como o tempo. O que aconteceu? Os grandes concorrentes de antes, em todos os setores, fundiram-se num só, formando monopólios excludentes da verdadeira concorrência. Aí podem oferecer os piores produtos, pelos mais altos preços. Sob outro prisma, acentuam também a concentração de renda e reduzem a oferta de empregos.
Se fosse citar aqui os exemplos disso ficaria horas escrevendo.
Uma vez estabelecido, o grande monopólio quebra os médios e pequenos negócios, de variadas formas, mas com destaque em duas frentes: pressão sobre os fornecedores de matérias primas, para que não traiam a exclusividade do comprador, e todo tipo de lobby parlamentar para criar leis restritivas no setor. Criam, assim, reservas de mercado.
A indústria automobilística foi a campeã, com a proibição, até o governo Collor, das importações dos modelos de fora do grupo das quatro grandes que dividiam o mercado doméstico. Outro grande exemplo foi a Lei da Informática, na ditadura, que também proibia importações sob o pretexto de proteger a tecnologia local, privada. O problema é que esta era rudimentar, os computadores não tinham recursos e emperravam a todo momento. Isso estimulava o contrabando. A expansão do setor só veio com a abertura do mercado. Na telefonia, na ditadura sob controle estatal nas mãos de oficiais da reserva, de alto escalão, promoviam a escassez de linhas e aparelhos para fomentar o mercado paralelo, as famosas bolsas de telefones, que ganharam bilhões com i sso. Telefone era até investimento, de tão caro que custava, com a especulação rolando solta. Chamar isso de absurdo é até suave. A sabotagem da expansão, já que a estatal dispunha de fornecimento e capacidade instalada para isso, abriu o caminho para a privatização. Mesmo assim sempre aparece algum desinformado aplaudindo a solução sem conhecer a causa do problema, e afirmando que não existia patifaria na ditadura.
Isso tudo sempre foi corrupção, em alta escala, que resulta em legislação que protege o monopólio e inibe o livre investimento.
Os fatos trituram o mito do livre mercado e da livre concorrência. Vamos ver mais alguns exemplos práticos: regulamentação do transporte rodoviário de passageiros, que restringe as rotas rentáveis a poucas empresas. Idem no setor aéreo. O ramo de bebidas, hoje concentrado na Ambev. A distribuição de filmes, em conluio com as redes, que acabou com os cinemas independentes de bairros, que ficavam na rua, fora dos shoppings. As redes de rádio e televisão. Os bancos, todos conglomerados, sem que tenha sobrado um único pequeno banco. E vai por aí, a lista é imensa. Pergunte, por exemplo, ao velho caminhoneiro autônomo, que tinha um ou dois caminhões, como essa categoria desapareceu. Ou ao lojista de rua, pequeno, como os grandes magazines operam seus preços (inclusive ao custo) para quebrá-los. Nem as livrarias escaparam, hoje tudo é grande rede. Tente abrir uma para ver se sobrevive seis meses.
Ora, se já não existe mais aquilo que era o grande argumento em defesa do capitalismo e do chamado livre mercado, cabe perguntar: o que sobrou?
Sobrou esta ampla corrupção, que sabíamos que existia, mas não sua extensão e valores. E olha que é só o começo, apenas uma empreiteira abriu o bico, faltam as outras.
Quando grandes empreiteiras se reúnem para fraudar licitações públicas, formando quadrilhas com a participação de políticos investidos de poder, eu quero saber que negócio é este de deixar que o próprio mercado concorra e defina suas próprias regras.
Tudo papo furado. Para não dizer o que realmente penso, impublicável.

Fonte: Milton Saldanha é editor do jornal Dance

Compartilhar

Copyright © 2017 Agência Petroleira de Notícias. Todos os direitos reservados.
Joomla! é um software livre com licença GNU/GPL v2.0

Av. Presidente Vargas, 502, 7º andar, Centro, Rio de Janeiro - RJ, CEP 20010-000 • (21) 2508-8878 Onlink.