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Bangu: os tempos de glória de um bairro esquecido pelo poder público

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Sexta, 20 Abril 2012
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Bangu já foi um região de prosperidade e inovação. O time local, Bangu Atlético Clube, onde jogou o primeiro negro no Brasil, completou 108 anos nesta semana. Pela primeira vez em décadas, o time que já colecionou talentos para o futebol brasileiro está na semifinal da Taça Rio. O Surgente presta homenagem a este bairro da Zona Oeste do Rio trazendo aos nossos leitores um pouco de sua história de glórias.

Apesar de não ser prestigiado como nos tempos da fábrica, o bairro de Bangu já teve muitos momentos de glória. Segundo o jornalista Roberto Assaf, autor de um livro com a história do bairro, foi ali o primeiro desfile de moda do Brasil. O bairro é um dos berços da Escola de Samba Mocidade Independente de Padre Miguel e do controvertido jogo do bicho. Tudo isso surgiu junto com a antiga fábrica de tecidos Bangu, fechada em 2004. O prédio foi tombado pelo IPHAN em 2000 e reaberto em 2007, onde funciona o Bangu Shopping.

Para que mais uma parte da história carioca não se perca, moradores e estudiosos se dedicam a pesquisar, resgatar e registrar em entrevistas com antigos operários da Fábrica de Tecidos, como era a vida nesse local que hoje é conhecido por ser a região mais quente do Estado.

Bangu era uma localidade agrícola, com grandes plantações, principalmente de laranja quando em 1893, a fábrica de tecidos começou a funcionar, com 745 trabalhadores. A construção iniciou quatro anos antes, em 1889, quando técnicos da Inglaterra vieram para o Brasil, para realizar o projeto da Companhia Progresso Industrial do Brasil, de aproveitar o potencial dos vários mananciais do Maciço do Mendanha e do Pico da Pedra Branca, na região, para implantar uma indústria têxtil. A água é fundamental em seis das oito etapas do processo têxtil. A inaugu-ração oficial contou com a presença do vice-presidente da República, marechal Flo-riano Peixoto e o então prefeito carioca Cândido Barata Ribeiro.

O bairro cresceu e se transformou com a chegada da fábrica. A primeira novidade veio com a criação da Sociedade Musical Progresso, espécie de clube recreativo que abrigava a banda formada por operários que animava os carnavais, que anos depois virou o Casino Bangu. Logo em seguida, foi erguida a primeira vila residencial para técnicos e operários da fábrica, com 95 casas.

Novos moradores chegaram também com a construção do ramal ferroviário de Santa Cruz, em 1878, e suas primeiras estações, Deodoro, Realengo e a estação Bangu (1890). Foram construídas mais vilas residenciais e operárias, novas ruas -

algumas delas com nomes ligados a indústria têxtil, como rua das Cardas, rua dos Tintureiros, rua da Fiação e rua dos Tecelões, que permanecem até hoje, e melhorias urbanísticas.

Bangu passou a ser um dos bairros mais elegantes do subúrbio carioca. A fábrica, que exportava muitos tecidos para países da América do Sul, foi a primeira a realizar um desfile de modas de caráter beneficente nos salões do Copacabana Palace. O sucesso da promoção, repetida em Belo Horizonte e São Paulo, levou a Companhia a criar uma estratégia de propaganda inédita no Brasil, baseada nos desfiles. Em 1952, buscando repercussão internacional, realizou uma festa para três mil pessoas, em Paris, para promover definitivamente o tecido brasileiro.

FUTEBOL – Oficialmente, o futebol chegou ao Brasil, através de Charles Miller. A primeira partida teria acontecido em São Paulo, em abril de 1895. Porém, historiadores e pesquisadores vêm buscando provas de que a bola rolou em solo brasileiro, antes disso, em Bangu.

O historiador Roberto Assaf fala sobre o episódio em seu livro. E revela que os ingleses trouxeram para Bangu uma atividade ainda desconhecida: o futebol. Isso em 1893, quando os times tinham cinco jogadores de cada lado, conforme era jogado na Inglaterra. E diz que o funcionário da fábrica chamado Francisco Carregal, foi o primeiro negro brasileiro a jogar futebol oficialmente. Ainda considerado um esporte de elite, ele entrou para completar o time e acabou se destacando. Em maio de 2001, a Assembléia Legislativa do Rio concedeu ao clube a Medalha Tiradentes, “por sua luta contra a discriminação racial” ao escalar jogadores negros “quando o futebol era um esporte de elite”.

Nesta época já existia o esporte amador, porém o Bangu Atlético Clube não contratava ninguém, quem contratava era a fábrica. Então jogadores como Domingos da Guia, Zizinho, Elcio Jacaré, Ubirajara, Nívio e Ladislau, eram contratados pela fábrica, mas somente para jogar futebol. Então, em 1933 o Bangu foi o primeiro campeão carioca profissional e a fábrica e o clube se tornaram inde-pendentes. O segundo campeonato veio em 1966.

PRESTES EM MOÇA BONITA – Já na ilegalidade, o Partido Comunista tinha grande influência sobre os operários da fábrica. A indústria têxtil tinha um sindicato muito forte, e Guilherme da Silveira, que foi ministro da fazenda no governo Getúlio, passou a ser o dono da fábrica em 1935. Silveirinha tinha uma aproximação muito grande com Luis Carlos Prestes e o convidou para inaugurar Estádio Proletário Guilherme da Silveira, o “Moça Bonita” em 28 de março de 1948. Roberto Assaf conta em seu livro que o nome “Moça Bonita” foi uma homenagem a uma moradora muito bonita que se reunia todas as tardes com amigas em um chafariz, localizado em frente à sua casa, onde os cadetes da Escola de Realengo, passeavam em dias de folga e iam “ver a moça bonita”.

CARNAVAL – Bangu contribuiu para o surgimento da Escola de Samba Mocidade Independente de Padre Miguel. O primeiro desfile da Mocidade aconteceu pelas ruas de Bangu e Padre Miguel, no carnaval de 1956, com o enredo Navio Negreiro.

Apesar de ser de outro bairro, a agremiação faz parte da história de Bangu, porque era formada por muitos operários da fábrica.

BANGU HOJE – Com o fechamento da fábrica ocorreu uma grande migração para outros bairros. A população do bairro passou a ser constituída por pessoas de camadas mais populares e muitos aposentados. Antes os trabalhadores moravam e trabalhavam em Bangu. Hoje o transporte é deficiente, tanto rodoviário quanto ferroviário, e as pessoas demoram duas horas, três para chegar ao centro da cidade. A maioria dos hospitais tem estrutura física, mas não tem médicos.

O petroleiro Vladimir Mutti, morador do bairro, conta que “com o dete-rioramento do Bangu Atlético Clube, a vida social ficou bastante reduzida. O Bangu deu vários jogadores para a seleção brasileira de futebol, para o basquete, o voleibol, nadadores, mas com a queda do poder econômico, muitos que estavam mais ou menos saíram. Hoje a atividade social é restrita ao Shoping Bangu que assumiu o espaço da fabrica e tem seis cinemas”, e a Praça da Fé com a Igreja de Santa Cecília e São Sebastião e só. Estamos pleiteando que a casa do Silveirinha seja um centro de memória da história de Bangu, mas existem interesses fortíssimos da especulação imobiliária.”
 
Fonte: Surgente
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