| Publicada em 23/04/08 03:12
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O candidato da esquerda, Fernando Lugo, vence as eleições paraguais, pondo fim há 61 anos de domínio do Colorado. Observadores internacionais inibem fraudes no processo.
Uma comitiva internacional, com cerca de 140 observadores de diversos países, foi convocada para acompanhar as eleições presidenciais no Paraguai. O jornalista José Arbex Jr., o escritor e militante da teologia da libertação Frei Betto, o ex-deputado federal João Alfredo (Psol-CE) e o reconhecido jurista fluminense João Luiz Duboc Pinaud, entre outros brasileiros auxiliaram e acompanharam de perto a vitória do ex-bispo católico Fernando Lugo. Representantes de praticamente toda a América Latina, além de França, Espanha e Inglaterra, marcaram presença. Todo o histórico de corrupção e fraude, que manteve o Partido Colorado, de centro-direita, por 61 anos no poder, estimulou a mobilização da comunidade internacional.
A missão da Organização dos Estados Americanos (OEA) atuou no país para assegurar uma eleição sem fraudes no domingo, dia 20 de abril. Ela convocou observadores, na maioria personalidades atuantes na defesa dos direitos humanos, para garantir a lisura do processo. - A campanha do Colorado era muito forte, com muito dinheiro. Foi uma grande surpresa a reação do povo que levou Lugo à vitória. Era ímpeto grande de votar – comenta Pinaud, presidente da seção Rio da Associação Americana de Jurista (AAJ) e que foi juiz eleitoral durante 11 anos. O famoso jurista niteroiense informa que as eleições foram tranqüilas: “No geral, foi tudo calmo. Não tivemos maiores problemas. O povo estava consciente. As pessoas humildes, descalças indo votar no Lugo. E olha que ele reclamou até o último momento por mais tempo de campanha, para poder explicar melhor seu programa.” Defensor da teologia da libertação e atuante nas ligas camponesas, Fernando lutou contra a ditadura, sempre trabalhando em comunidades rurais com seus chamados sermões subversivos. O pai foi preso 20 vezes. Os irmãos torturados. Entrou no seminário aos 19 anos. Foi expulso do Paraguai em 1983 pelo regime militar. Voltou à sua terra em 1987. Ordenou-se bispo de San Pedro, em 1994, assumindo a diocese mais pobre do país. Deixou a batina em 2006, atendendo aos anseios populares, para poder candidatar-se à presidência. Apresentou um programa progressista e de esquerda que fala da revisão do contrato de Itaipu, expansão dos direitos sociais, como educação pública de qualidade e com acesso universalizado, reforma agrária e atenção às populações indígenas. Esperança supera dúvidas em relação a caráter classista do futuro governo Lugo
João Luiz Duboc Pinaud dizia que era impressionante ver como um homem conseguiu materializar em si o desejo de mudança de todo um povo e conseguir pôr fim ao domínio de décadas do Colorado. O APC (Aliança Patriótica para a Mudança, na sigla em espanhol), uma ampla coalizão com partidos de várias tendências, que levou Lugo a vitória gera desconfianças na esquerda brasileira. - Meu espírito crítico aguçado me fazia desconfiar de uma aliança de partidos e movimentos de esquerda com um partido autodenominado liberal (que indicou o vice da chapa), ainda que a candidatura de Lugo, um bispo comprometido com a causa dos pobres, militante da Teologia da Libertação, me inspirasse uma simpatia de quem já havia acompanhado com fervor, há quase trinta anos, a Revolução Sandinista da pequenina Nicarágua – coloca João Alfredo, em artigo que acaba de escrever em seu retorno de Assunção, após acompanhar as eleições paraguaias. O cearense, ex-deputado federal do Psol, revela que a convivência, mesmo que curta, com o povo paraguaio lhe cativou e fez ter esperanças. Também se assustou com a presença ostensiva da estrutura do Partido Colorado: carros, camionetas, ônibus, a carregar os eleitores, sem nenhum pudor de conduzi-los, inclusive, às portas das seções eleitorais. Cartazes, adesivos, bandeiras, demonstrando a prepotência de mais de 60 anos de dominação e corrupção. Em contraposição a essa lógica, surge o “Tekojoja", que é o nome do movimento da candidatura de Lugo. João Alfredo conta que ouviu dos paraguaios três diferentes traduções: "todos juntos", "estamos (ou vivendo) juntos" e "somos todos iguais". Esta parece a mais apropriada (embora sem contradição com as demais), pois "joja" significa "paralelo", "no mesmo plano", a dizer que ninguém é maior do que o outro. Observadores internacionais inibem as fraudes do Colorado Para Pinaud, a eleição estava caminhando para a continuidade do Partido Colorado. A manutenção do sistema de miséria e estagnação, espoliação da nação, dos guaranis, muita corrupção e total impunidade. O colaborador do Jubileu Sul e integrante da comissão nacional de direitos humanos da OAB ainda levanta sérias denúncias.
- Houve demora proposital no tempo do voto. Alguns chegaram a levar 15 minutos para votar. Era uma estratégia para fazer o povo desistir. Houve fraude também para tirar votos do Lugo e conseguiram diminuir a margem da vitória. Dificultar a votação. Mas não impediram que a vontade do povo prevalecesse – conta o jurista que também esteve no Haiti em missão internacional para garantir a preservação dos direitos humanos daquele povo. Ele ainda destaca dois fatos que fortaleceram muito o processo do pequenino país sul-americano: “O primeiro foi a força do povo paraguaio depois de tantos anos de dominação e usurpação social. O vontade deles por mudança era gritante. A outra questão foi o sistema dos observadores internacionais presentes no processo que deram uma transparência e margem de dignidade grande à eleição.” A comitiva protegeu as urnas. Alterou a disposição de algumas mesas de votação para garantir maior privacidade no voto. Coibiu tentativas de fraude. João Luiz Duboc Pinaud atesta que se não estivessem presentes os observadores internacionais o resultado poderia ter sido muito ruim. Participação popular e desejo de mudança movimentam o Paraguai O povo vinha atrás trazer denúncias, apontar possíveis fraudes. Os colorados chegaram a distribuir alimentos por votos, mas foram rapidamente repreendidos por integrantes desse grupo internacional de apoio. A população queria muito ajudar e enxergava nessa comitiva fiscais e mantenedores da democracia. Mesmo com toda sua experiência, Pinaud afirma nunca ter visto coisa igual ao ocorrido: - Três carnavais não chegariam naquela alegria do povo paraguaio. Todo mundo na rua, comemorando nas praças. Nunca vi nada igual. Todo mundo participou. As pessoas conversavam sobre eleições. 40 pessoas conversando nos bares. Só se falava em política. Ficou marcado um novo tempo no país. E um grande exemplo para o mundo. O resultado final da eleição, com 100% das mesas apuradas, totalizou 41% para Lugo, 31% para a candidata da situação Blanca Ovelar (do Partido Colorado e atual Ministra da Educação) e 22% para o ex-general Lino Oviedo (Partido União Nacional de Cidadãos Éticos, uma dissidência do Colorado). O restante do percentual foi dividido entre Pedro Fadul (2%), nulos (2%) e brancos (2%). O total de participação foi de 65% - um índice que foi considerado decisivo para o resultado favorável em Lugo. Fonte: Agência Petroleira de Notícias (www.apn.org.br) |
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