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Disputa por petróleo no Sudão ameaça frágil paz na fronteira Imprimir E-mail
 
Publicada em 23/02/12 12:28

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O Sudão e a nação separatista Sudão do Sul vivem no momento uma disputa extremamente perigosa por bilhões de litros de petróleo, apreendendo petroleiros, fechando poços e colocando em risco a frágil paz colocada em prática após décadas de guerra
 
 
A relação entre o Norte e o Sul permaneceu boa durante anos, mas agora uma guerra entre as duas nações tem alimentado o crescimento de grupos rebeldes chegando a resultar em confrontos diretos. A disputada fronteira irregular que separa o Sudão de seu vizinho recentemente considerado independente é agora provavelmente uma das regiões mais perigosas da África, com dois grandes exércitos que lutam entre si há gerações e em ambos os lados da divisa.

Após uma reunião de emergência para evitar um conflito maior, os dois lados concordaram em firmar um pacto de não agressão na sexta-feira, cedendo à intensa pressão da União Africana, dos Estados Unidos e da China - um parceiro na compra de petróleo de ambos os lados - para abandonar as táticas mútuas de destruição.

Mas poucos analistas conseguem enxergar soluções fáceis para acabar com a disputa que é em grande parte provocada pela disputa do petróleo, e não está muito claro como esse novo pacto de não agressão será diferente de pactos de segurança feitos anteriormente que não levaram a lugar nenhum. Em maio, os dois lados concordaram em desmilitarizar a fronteira. Mas poucos dias depois, o Sudão começou um bombardeio ao longo dela, ocasionalmente lançando bombas ao sul, enquanto o Sudão do Sul corria para se armar e enviar os rebeldes aliados para lutar do outro lado da divisa.

A área da fronteira tem sido uma região muito disputada nos últimos anos porque é onde a maior parte do petróleo se encontra.

Ambos os lados precisam desesperadamente de petróleo para a sobrevivência de seus governos, alimentar seus povos e acabar com rebeliões que se espalham dentro de suas fronteiras. Além disso, teoricamente, os dois lados precisam um do outro. O problema principal é que 75% do petróleo está no sul, mas o gasoduto para sua exportação atravessa o norte. Por isso, já se pensou que o petróleo poderia unir as duas nações e evitar o conflito. Agora, ao que parece, o petróleo está se tornando o principal motivo do confronto.

Quando o Sul do Sudão se separou do Sudão no ano passado, após anos de lutas, a sua independência foi anunciada como um acontecimento triunfal que ajudou a acabar com uma das mais mortais guerras civis da África. Mas a questão de como exatamente os dois lados iriam compartilhar os lucros do petróleo após a separação não foi resolvida na época. Agora que ambas as nações estão lutando para torná-lo exclusivamente seu, a questão se complicou - e se tornou perigosa - como muitos temiam.

Foi o petróleo do Sudão do Sul que impulsionou a expansão econômica do Sudão na década passada e que permitiu que a repressão do governo islâmico (que ainda é fortemente penalizado pelos Estados Unidos) fosse tolerável para muitos sudaneses. Quando o Sudão do Sul declarou a independência e levou bilhões de dólares em petróleo junto à sua decisão, fez com que a economia do Sudão piorasse e acabou criando uma das piores crises que o presidente Omar Hassan Bashir enfrentou em seus mais de 20 anos no poder.

Bashir tem que lidar com a alta inflação, uma economia retraída, protestos estudantis e diversas rebeliões simultâneas - em Darfur, na região dos Montes Nuba e no Estado do Nilo Azul - assim como acusações de genocídio relacionadas com os massacres que aconteceram há vários anos.

Ao mesmo tempo, o Sudão do Sul, um dos países mais pobres do mundo, está enfrentando uma grande crise alimentar e milícias fortemente armadas e de diferentes etnias têm avançado sobre uma grande parte do interior do país, matando centenas de pessoas e fazendo com que as forças de segurança do país não sejam levadas a sério.

Para piorar a situação, o Sudão o Sudão do Sul estão secretamente apoiando rebeldes no quintal de seus vizinhos, criando confrontos internos. A fronteira entre os países, que tem mais de 990 km, está efetivamente fechada, impedindo a distribuição de milhões de kg de alimentos de emergência e a realização de qualquer tipo de comércio.

Antes do acordo de emergência feito na sexta-feira passada, a situação era tão precária que muitos enxergavam apenas soluções violentas. "Eu pessoalmente acho que vai acontecer uma guerra", disse Mariam al-Sadiq al-Mahdi, líder política da oposição, em Cartum, a capital. "O que está acontecendo é uma prévia do que está por vir."

Na luta pelo petróleo, o sul se recusou a pagar taxas pelo uso dos gasodutos do Sudão. O Sudão piorou a situação no final de dezembro, quando impediu a passagem de petroleiros. Então, o sul reagiu à medida drástica de forma abrupta e fechou todos os seus poços, o que poderia acabar rapidamente com as economias de ambos os países.

Oficiais do Sudão do Sul admitiram que estão usando agora o seu petróleo para fazer com que Cartum faça concessões em todos os tipos de questões, inclusive sobre a disputada região de Abyei, insistindo que a produção de petróleo voltará ao normal apenas depois que "todos os acordos forem assinados."

O sul também ameaça deixar de exportar seu petróleo por anos enquanto constrói um gasoduto alternativo através do Quênia. Mas não está claro como o país sobreviveria por muito tempo, sendo que o petróleo faz parte de cerca de 98% das receitas do governo. Especialistas questionam se um gaseoduto pelo Quênia é mesmo viável, uma vez que seriam necessárias muitas estações de bombeamento a um alto custo.

Os oficiais em Cartum dizem que o sul deve quase US$ 1 bilhão em taxas pelo uso de seus gasodutos, o dinheiro necessário para evitar que sua economia entre em colapso, e que recentemente vendeu parte do petróleo dos navios apreendidos antes de liberá-los. O presidente do Sudão do Sul, Salva Kiir, afirmou que a quantidade que Cartum queria, US$ 32 por barril, era "exorbitante" e "completamente fora das normas internacionais."

Sabir M. Hassan, um negociador do governo sudanês, disse que o norte estava disposto a ser flexível, mas que os sulistas estavam "muito sensíveis" e ainda se enxergavam como rebeldes.

"Se você lhes dá duas opções, eles vão escolher aquela que é pior para o norte e não aquela que ajudará o sul", disse Hassan.

Os líderes do Sudão do Sul dizem a mesma coisa sobre Cartum, que bloqueou suas estradas para o Sudão do Sul e, recentemente, impediu o embarque de ajuda humanitária - tudo para punir o sul à custa de milhões de dólares em negócios perdidos.

Fonte: Jeffrey Gettleman, New York Times
Foto: Bloomberg


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